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sábado, 24 de mayo de 2014

A Guerra Imperialista contra o México de 1846-1848 e a actual

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Versión en portugués traducida y editada por odiario.info

A Guerra Imperialista contra o México de 1846-1848 e a actual

24.Mai.14 :: Outros autores
A guerra dos EUA contra o México em meados do século XIX e a actual intervenção militar que toma como pretexto “o combate ao narcotráfico” têm muito em comum. São guerras imperialistas e anexionistas, e hoje também guerras de classe: a “guerra contra o narcotráfico” constitui pretexto para que a grande burguesia mexicana e os seus governantes se aliem aos EUA para militarizar o país e criminalizar o protesto social.

I. A guerra contra o México no século XIX

A guerra contra o México teve como causa as pretensões expansionistas dos EUA (evidenciadas desde a sua independência da Inglaterra, a 4 de Julho de 1776), ao adoptar o nome de todo o continente americano [1] como projecção da sua precoce ambição de o conquistar por inteiro. Como notava William Foster, que foi presidente do Partido Comunista dos EUA: “nenhum outro país do hemisfério ocidental tentou jamais monopolizar o termo genérico América” [2].

O primeiro passo nesta direcção foi a criação da República do Texas numa parte dos territórios de Coahuila, Tamaulipas, Chihuahua e Novo México. Mas os EUA não se contentavam com isto. Pretendiam adquirir também os territórios da Alta Califórnia e Novo México, o que deu lugar à invasão do território mexicano pelo exército dos EUA. O Presidente James Knox Polk (Março de 1845 a Março de 1849) encarregou-se de desencadear a agressão contra o seu vizinho. Antecedentes da política de anexação dos EUA foram, entre outros, a compra da Luisiana [3] à França em 1803 e a assinatura do tratado de Adams-Onís, de 1819, que obrigou a Espanha a ceder a Florida [4] [5].

De resto, a expansão dos EUA à custa do México começou antes da declaração de guerra oficial daquele a este último país. Para além disso, desde antes da guerra de independência do México, e no decurso da mesma, os EUA tentaram, em vão, apoderar-se do Texas. Finalmente, para atingir o seu objectivo, encontrou uma via legal. Sob certas condições, o México permitiu aos colonos dos EUA instalar-se no dito território. Não obstante, os expansionistas decidiram povoá-lo rapidamente, o que obrigou o México a revogar o seu bem-intencionado gesto para com o vizinho do Norte.


Contudo, os colonos continuaram a chegar, a tal ponto que, em meados dos anos 1830, o seu número superou as 30 000 pessoas. Em 1835, depois de se apoderarem da povoação de Anáhuac, usada como ponto para apropriar-se de todo o Texas, começou a guerra não declarada contra o México. Faltava apenas a farsa de 1837, que consistiu no reconhecimento oficial da sua “independência”; que foi seguida, sem surpresas, pela França e Inglaterra.

Para justificar esta ardilosa anexação chegou a sustentar-se que, no passado, o Texas havia pertencido aos EUA, quando tratados entre estes e a Nação Azteca, como os de 1819 e 1828, desmentiam por completo semelhante embuste, uma vez que estabeleciam a linha fronteiriça entre ambos os países. Depois do Texas (que foi incluído no território dos EUA a 29 de Dezembro de 1845), veio a guerra declarada contro o México, a 13 de Maio de 1845.

O Presidente James Knox Polk, a 11 de Maio desse mesmo ano, declarou cinicamente: “o México violou a fronteira dos EUA, invadiu o nosso território e derramou sangue dos EUA sobre território dos EUA”. Abraham Lincoln (Março de 1861 a Abril de 1865) desmentiu-o escrevendo que, na verdade, as acções beligerantes se haviam iniciado em solo que era de há muito mexicano. Em suma, os EUA, arrebatando ao México mais de metade da sua superfície, aumentaram a sua própria em mais de um terço. [6]

O carácter de conquista da guerra contra o México foi reconhecido inclusivamente por personagens dos círculos dirigentes dos EUA. Ulysses Grant (1822-1855), que fora presidente deste país (1869-1877), escreveu: “Esta guerra é uma das mais injustas jamais desencadeadas por um país forte contra um país fraco”. [7]

Ao contrário de Grant e antes dele, Thomas Jefferson (presidente no período de Março de 1801 a Março de 1809), escrevia, sem rodeios: “A nossa confederação há-de ser o ninho a partir do qual se povoará a América inteira, tanto a do Norte como a do Sul. Ainda que hoje, os nossos interesses nos forcem a permanecer dentro das nossas fronteiras, é impossível deixar de prever o que ocorrerá quando a nossa população crescer e se estender e cobrir por inteiro o solo a norte do continente e também a sul.” [8]

A guerra culminou ao firmar-se o tratado Guadalupe-Hidalgo [9], aprovado pelos EUA em Março de 1848, e pelo México, em Maio do mesmo ano. Os representantes da nação azteca conseguiram evitar a cessão de Sonora, Chihuahua e da Baixa Califórnia; para além de conseguirem o livre-trânsito pelo istmo de Tehuantepec. Os invasores permaneceram em solo mexicano até 12 de Junho de 1848, data em que saíram da Cidade do México, rumo a Veracruz, onde embarcaram com destino ao seu país. Corolário do conflito imposto pelos EUA, o México perdeu 2 400 000 km² [10]. A sua superfície actual é de aproximadamente 2 000 000 km². [11]



II. A guerra contemporânea

A guerra “contra” o narcotráfico e o terrorismo

Hoje, o império ianque desencadeia outra guerra contra a nação azteca. Desta vez, disfarçada de luta contra o narcotráfico. Assim, o papel que era antes conferido ao comunismo, hoje ocupam-no o narcotráfico e o terrorismo que, em absoluto, nada têm que ver com o primeiro. Apenas o facto de a guerra actual utilizar os governos de turno para se empreender; foi Felipe Calderón (2006-2012) quem primeiro desencadeou a “guerra contra o narcotráfico” e logo “pediu” auxílio aos EUA. Neste momento, para além de negócio, o narcotráfico actua como qualquer corporação capitalista: em termos políticos, encarrega-se de instalar o terror por meio da violência, tomando-o de pretexto para militarizar, neste caso particular, o México, e criminalizar todas as lutas sociais. Desta forma, os aparatos repressivos justificam o controlo sobre a população, os trabalhadores e os territórios, facilitando, com isso, a penetração do capital. [12]

Crianças, as primeiras vítimas da “guerra” contra as drogas

Mas o eufemismo “guerra ao narcotráfico” esconde uma verdade dilacerante para o povo mexicano em geral, particularmente para as crianças e para as mulheres, que se convertem em vítimas reais, quando consideradas como pessoas particulares e não como números indefinidos, sem carne e osso.

Com efeito, as crianças converteram-se nas “primeiras vítimas da luta contra as drogas que o governo mexicano trava desde há sete anos, seja como instrumentos de bandos criminosos, seja como órfãos e filhos de pessoas desaparecidas”. E, ainda que esta guerra já tenha provocado, segundo alguns dados, “uns 100 000 mortos, 27 000 desaparecidos e uns 250 000 deslocados”, ainda faltam números que tornem possível avaliar as consequências que provocará o desencadeamento da violência contra as crianças mexicanas. “Os menores de idade costumam ser […] as vítimas ideais para o crime organizado, que vê neles uma mão-de-obra “fácil de conseguir e muito barata”.”



Sabemos que 27 000 crianças trabalham em função desse flagelo que os manipula para perpetrar todo o tipo de crimes, incluindo assassinatos, segundo estimativas da Rede pelos Direitos da Infância no México. O narcotráfico, em determinados momentos, serve como única saída para os menores de todo o país. Ilustra claramente esta cruel realidade imposta o exemplo de Chihuahua, estado fronteiriço com os EUA, o mesmo em que a indústria maquilhadora emprega milhares de mães solteiras que, quando vão trabalhar, se vêem forçadas a deixar sozinhas as suas crianças e adolescentes, desde manhã muito cedo até ao princípio da tarde. Em Ciudad Juárez, as crianças mais pequenas que têm esta sorte estimam-se em 100 000, o que os torna alvo fácil para os gangues que os recrutam como vigilantes ou como vendedores de droga. [13]

O cinismo imperialista




Com o cinismo que caracteriza os que se estão por detrás da tragédia que se impõe à nação azteca, Léon Panetta, antigo ministro da defesa do império ianque, fala como se nada tivesse acontecido; e, valendo-se dos números que supostamente lhe foram proporcionados por burocratas mexicanos, assinala que um total de 150 000 pessoas terá morrido na guerra contra o narcotráfico, sem precisar o período a que correspondem estes números, que contrastam com os números oficiais do México: 47 500 pessoas. Mas estes números, maiores ou menores, devem-se por completo ao narcotráfico, sem acusar a própria responsabilidade dos EUA, nem a do próprio governo mexicano, nessa terrível tragédia aqui apenas esboçada. Não é estranho que Panetta fale de mortes que, segundo a sua visão, apenas ocorrem nos cartéis do México. Oculta, desde modo, que as vítimas maiores são pessoas não ligadas aos mesmos, reduzindo tudo à violência do narcotráfico.

E Panetta estende ao resto do continente aquilo que considera um problema para o México, omitindo a grande responsabilidade que nele têm as forças que governam o seu país e não poucos países do hemisfério ocidental, sobretudo, entre os adeptos das suas políticas e objectivos. “Obviamente”, acusa, “uma das grandes ameaças que enfrentam a América do Norte, a América Central e a América do Sul são os cartéis da droga e o tráfico de droga que se produz”. “O perigo tem várias frentes. A primeira é a tremenda violência.” [14] Pode constatar-se facilmente que, aqui, a violência aparece como por encanto, do nada. Forma útil de fugir ao exame real das coisas.

Com a determinação e convicção que o caracterizam, Daniel Ortega, Presidente da Nicarágua, insiste que, se os EUA querem, na verdade, combater o narcotráfico, devem começar por impedir que o seu próprio território seja o grande consumidor e, ao mesmo tempo, aportar mais recursos para a América Central, para, neste campo, fazer a sua parte nos países que a integram. “Controlando o consumo”, expressou o mandatário nicaraguense nos finais de 2011, “estarão realmente atacando de raiz este problema do narcotráfico, enquanto isso, continuaremos a ser vítimas”. [15]

Contrariamente à posição dos governos do México e dos EUA acerca do referido, a escritora Lolita Bosch, autora do livro Campos de Amapolas Antes de Esto [Campos de Papoilas Antes Disto], fornece um quadro real do drama do povo azteca, precisando as coisas desta forma: “Estamos em guerra, estão a matar-nos e temos mais de meio milhão de vítimas” e desvenda o modo como “a aliança entre o narcotráfico, as autoridades políticas e as redes financeiras forjaram no México um campo de batalha que já custou “mais vítimas que as três ditaduras do Cone Sul juntas”.

Decorridos cinco anos desde que o antigo presidente Felipe Calderón desencadeou a chamada guerra contra o narcotráfico (convertido em atrocidade e barbárie que atinge praticamente cada família mexicana), muitos activistas pela paz reclamaram do presidente, revela aquela escritora, que explicasse por que razão “entrou numa guerra que não tinha possibilidade nenhuma de ganhar” e por que razão “estão a matar os nossos familiares e amigos”. Na sua opinião, a história que se construiu em torno do narcotráfico tem como finalidade que os mexicanos pensem que sabem quem são os barões da droga, assim como onde opera cada cartel. Trata-se de um discurso que se apoia em preconceitos sociais, como aquele que diz que os narcotraficantes são homens de pele escura e do norte, destemidos, dedicados apenas ao narcotráfico, quando, na verdade, são um triunvirato de pessoas no poder, responsáveis certamente pela guerra e tráfico de estupefacientes; mas são, ainda assim, os que se ocupam da lavagem de dinheiro nas redes financeiras e os que permitem que ele seja possível, quer dizer, autoridades políticas. E não é à toa que a autora precisa: “muitas vezes temos mais medo do governo que do narcotráfico”. [16]

A cumplicidade do governo torna mais poderoso o crime organizado

No que respeita aos problemas que afectam a população mexicana, a inacção do governo conduz a que as organizações criminosas, tanto locais como estrangeiras, se dediquem ao tráfico de drogas e pessoas, à extorsão e ao contrabando. O governo, afirma Edgardo Buscaglia, presidente do Instituto de Acção dos Cidadãos para a Justiça e Democracia, torna-as mais poderosas, na medida em que ninguém toca nos seus rendimentos. Permitiu-lhes diversificar tanto os seus capitais em diversos sectores, aumentando assim a sua ganância.

Desde 2006, as autoridades mexicanas apreenderam quase mil milhões de dólares em dinheiro, uma cifra minúscula quando comparada com consultoras e organizações internacionais. De acordo com o relatório “México: fluxos financeiros Ilícitos, desequilíbrios macroeconómicos e a economia informal”, publicado em Janeiro de 2010, os casos de corrupção, subornos, crimes e ocultação de riqueza, entre 1970 e 2010, geraram uns 5,2% do PIB do México. E um relatório do Global Financial Integrity, programa do Center for International Policy, encarregado da promoção de melhor controlo sobre o capital ilegal, revela que, nos anos 1970, os valores apreendidos (derivados de dinheiro ilícito saído do México) somaram 10 000 milhões de dólares; nos anos 1980 ascenderam a 17 400 milhões de dólares; finalmente, de 2000 em diante, saíram do México uns 49 600 da mesma divisa.

E isto não é tudo. É mais do que suspeito que o México não tenha sido, até agora, penalizado nem pela OCDE, nem pelo grupo de estados ricos e emergentes, instâncias a que está adscrito (supostamente encarregadas da transparência fiscal e financeira e da luta contra a lavagem de activos); nem mesmo pelo Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI), organismo que diz combater o crime económico, fiscal e fronteiriço, para o qual tem 40 recomendações relativas à lavagem de dinheiro e 9 de financiamento e terrorismo; faz com que a nação mexicana incumpra a maioria dessas recomendações. Pior ainda, no seu relatório de 2008, o GAFI afirmava que o México havia realizado esforços sem precedentes para combater os delitos assinalados.

Falando deste tema, não deve esquecer-se que as receitas que provêm do narcotráfico, ainda que este constitua parte informal da economia real, deixam na sombra a infra-estrutura; quer dizer, como assinala Buscaglia, o relativo a “edifícios, armazéns, camionetas, sistemas de distribuição”. E explica: “A lavagem é apenas uma pequena parte. A parte mais difícil é identificar quem é o dono de determinada fábrica e se tem alianças com grupos ilegais”. E refere que ninguém aborda a parte financeira e económica, porque quando se tenta revelar quais são as empresas legais que financiam campanhas eleitorais, os partidos defendem-se evitando que as mesmas sejam afectadas. Não foi por acaso que o parlamento se recusou a aprovar, em Maio de 2012, um projecto de lei que combatia a lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de estupefacientes. [17]

O drama da população mexicana em geral e dos povos indígenas

A guerra imposta aos povos do México mistura-se com a imposta aos povos indígenas, que foram, e continuam a ser, vítimas de violência sistemática, ancestral, misturada agora com a do narcotráfico. Deste modo, como declaram os promotores da resistência ao crime, à injustiça e à opressão social multifacetada, impõe-se como repto deixar o medo de lado, como única arma eficaz para combater a delinquência e as autoridades. Daí que não admire, de todo, que o apelo feito para pôr fim aos males insuportáveis impostos aos povos do México seja para as pessoas que os suportam e não tanto para um governo coligado com o mundo da delinquência e do narcotráfico. Trata-se, entre outras coisas, de aprender com a real resistência histórica dos povos indígenas. A esse respeito, valem muito as experiências das comunidades zapatistas, que não deixam de sofrer às mãos tanto de grupos paramilitares como dos partidos políticos.

Os emigrantes do Sul que chegam ao México sem documentos legais, tratando de chegar dali ao “paraíso americano”, estão entre os submetidos à brutalidade da lei e do crime organizado. Tratam de evitar controlos migratórios, bloqueios policiais e forças paramilitares como os Zetas e, além disso, a outros emigrantes que, oferecendo-se, entre outras coisas, como guias, trabalham no crime organizado, na polícia, no narcotráfico ou no delito comum.

Como evidência, Frei Tomás González, padre franciscano que, em Palenque, dirige um albergue que acolhe emigrantes, assinala: “Estamos numa região verdadeiramente ingovernável, a rota migratória é uma verdadeira via-sacra, os albergues onde os recebemos exalam o cheiro da doença, da perseguição, da morte, da crucificação…”

Para cúmulo, o Instituto Nacional de Migração é cúmplice, tanto do crime organizado como do governo que o protege. E as mais prejudicadas são as mulheres: “há pessoas”, afirma uma delas, “que se oferecem como guias a troco do pouco dinheiro que temos, ou grátis, incluindo companheiros nossos, mas o que querem é molestar-nos, há violações, maus tratos, roubos, sequestros…”
E como na Colômbia (indiscutivelmente outro narco-estado), é bem visível o embuste perverso dos “falsos positivos”. A este respeito, Javier Sicilia, activista, poeta, ensaísta, novelista e jornalista mexicano, observa: “Joaquín Figueroa e os seus dois companheiros, criminalizados, humilhados, difamados, são chamados falsos positivos. Como a guerra se conta por baixas, mata-se um, dois, três delinquentes, juntam-se três inocentes e já são seis. São esses os falsos positivos. Pedimos que se limpe o nome desses homens.”

Para Sicilia, todas as queixas, sejam do norte ou do sul, são o corolário do sistema económico dominante, o mesmo que maximiza a ganância por via da exploração “da natureza reduzida a ‘recursos materiais’, e dos seres humanos reduzidos a ‘recursos humanos’, que arrasou terras, despojou territórios, culturas, memórias, provocado deslocações, gerado forças paramilitares e assassinatos terríveis”. Logo, para perpetuar a deslocação, e rasgar o tecido da nação, o crime organizado não fez mais do que extremar esta ordem de coisas, consistente em “sequestros, tráfico de pessoas, assassinatos, uso da força de trabalho desempregada” a fim de maximizar os recursos da economia legal para fins criminoso, garantindo assim a maximização do capital e do poder, recorrendo à exploração ilimitada dos “recursos humanos”, perverso eufemismo para falar da força de trabalho como mercadoria.

Dá alento à luta que os mexicanos travam contra o regime existente no seu país, a consciência de que, nas zonas do sul, onde estão vivos os costumes comunitários, o crime organizado está limitado. Neste sentido, Acteal e as zonas zapatistas são os territórios mais seguros. Por agora, a meta a alcançar, por parte daqueles que, no México, lutam por transformar radicalmente a cruel realidade que impera, é travar a proposta de lei da segurança nacional que o governo pretende aprovar, já que ela firmaria as bases de um estado militar, uma vez que, com ela, o executivo disporia das forças armadas à sua vontade, sem precisar de recorrer ao Congresso. O que agora se conseguiu consiste em trazer à luz as vítimas da guerra, colocando-as em agenda. [18]

O TLCAN e o exacerbar da pobreza no México

É evidente que os problemas do México não se esgotam com o que referimos. O Tratado de Comércio Livre da América do Norte (TLCAN), muito mais que um benefício para a população deste país latino-americano (se é que existe algum, coisa de que duvidamos sobremaneira), foi um factor multiplicador da pobreza. De resto, desde 1984, ano em que se iniciou este tratado comercial entre os EUA, o Canadá e o México, até 2008, a riqueza deste último multiplicou a quantidade de pobres e enriqueceu uns quantos nacionais e estrangeiros. Em termos concretos, “gastaram-se 200 mil milhões de dólares, isto é 2 400 000 000 000.00 de pesos em programas assistenciais para os pobres.” Estes passaram de 39% a 78%; mais propriamente, se no princípio de 1984 existiam 30 milhões de pobres, em 2008 já eram 78 milhões, apesar do governo apenas reconhecer 44,7 milhões. [19]
Segundo o relatório da Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas (CEPAL) de Dezembro de 2013, o México é o único país da América Latina e das Caraíbas que regista um crescimento da pobreza. Nele, os mais privilegiados têm rendimentos que superam 14 vezes os dos mais desamparados, cujo número se elevou a 60,6 milhões de pessoas; mais um milhão do que em 2010. 51 em cada 100 mexicanos carece dos bens e serviços essenciais para estar num nível mínimo de bem estar; entre 2010 e 2012, o número de pessoas sem acesso à segurança social cresceu de 69,6 milhões para 71,8 milhões. Em 2012, 20% das famílias mais enriquecidas arrecadaram 46,2% das receitas do país; isto enquanto 20% das famílias mais pobres obteve apenas 6,6% das mesmas. [20]

Ao entregar a Pemex a petrolíferas estrangeiras, e eliminando direitos históricos que desferem duros golpes no poder de compra das pessoas trabalhadoras e pobres, os émulos actuais de Santa Anna quase completaram o processo de destruição da soberania e independência do México. Dada a destruição do campo e a emigração massiva, quase 60% dos alimentos que se consomem no México são importados, pagando-se com exportação de combustíveis e de bens agrícolas e industriais, produzidos pelas transnacionais mediante a sobre-exploração dos trabalhadores locais. [21]

O que resulta claro, muito claro, da realidade mexicana actual é que a distância entre os discursos actuais (que não passam de bonitas promessas não cumpridas) e a realidade que envolve a esmagadora maioria dos cidadãos e cidadãs é cada vez maior. É como a distância entre a quimera das palavras ocas e algo que, de algum modo se assemelha ao inferno dantesco, que parece real na nação azteca.

Notas do autor:

[1] Declaração de Independência dos Estados Unidos de América. In CONGRESSO, 4 de Julho de 1776.
http://www.libertad.org/declaracion-de-independencia-de-estados-unidos-de-america
[2] Citado por Valentín Selivánov en “La expansión de EE.UU en América Latina”. En Historia de las Intervenciones Norteamericanas. Tomo II. Agresión Imperialista de EE.UU en América Latina. Segunda edição. Redacción “Ciencias Sociales Contemporáneas”. Academia de Ciências da URSS, Moscovo, 1982. p. 12.
[3] “La compra de Luisiana y la batalla de Nueva Orleans–”. Napoleão Bonaparte obrigou Carlos IV, rei de Espanha a devolvê-la à França. Thomas Jefferson havia adquirido esse estado primeiro. “Ao ser içada em 20 de Dezembro de 1803, a bandeira dos EUA ondeia sobre uma Luisiana muito vasta que se estende aproximadamente desde o Golfo do México até ao Canadá, e desde o rio Mississippi até as Montanhas Rochosas. No final, esse território dividir-se-á para formar outros 13 estados”. http://www.iadb.org/EXR/cultural/catalogues/orleans/louisiana_purch_sp.html
[4] Wikipedia. “Intervención estadounidense en México”. http://es.wikipedia.org/wiki/Intervenci%C3%B3n_estadounidense_en_M%C3%A9xico
[5] Wikipedia. “Tratado de Adams-Onís”. “O Tratado de Adams-Onís, ou Tratado de Transcontinentalidade de 1819-1821 (antigamente chamado Tratado de Amizade, para resolver diferenças e limites entre sua Majestade Católica, o Rei de Espanha e os Estados Unidos de América algumas vezes denominado Florida Purchase Treaty ou Tratado da Florida de 1819-1821) foi o resultado da negociação entre Espanha e os EUA para fixar a fronteira entre a nação norte americana e o então vice-reino da Nova Espanha / Luís de Onís foi o representante do Rei Fernando VII de Espanha e, pelos EUA, o secretário de estado John Quincy Adams. A negociação iniciou-se em 1819 e ainda que se tenha assinado nesse mesmo ano, não foi ratificado antes de 22 de Fevereiro de 1821, por ambas partes. / A fronteira fixou-se mais além do rio Sabinas e do Arkansas até ao paralelo 42° e, como consequência imediata, a Espanha perdeu os seus territórios para além dessa latitude, como foi o caso do território de Oregon, e também perdeu definitivamente a Florida, a Luisiana e a possibilidade de navegar o rio Mississipi. A coroa espanhola ficou como única soberana do Texas, território que os Estados Unidos reclamavam como parte da Luisiana e, por essa razão, comprada a aos franceses em 1803, segundo os EUA. http://es.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Adams-On%C3%ADs
[6] Iván Kumarián. “LA GUERRA DE EE.UUC ONTRA MÉXICO (1846-1848”. México: Historia Cultura, Desarrollo Contemporáneo. Tomo I. Redacción “Ciencias Sociales Contemporáneas”. Academia das Ciências da URSS. Moscovo, 1981. pp. 112-113,115-116, 118-120, 146.
[7] Manuel Moncada Fonseca. El mundo que el imperio nos impone. http://www.rebelion.org/noticia.php?id=85847
[8] Citado por Leopoldo Zea. “Los retos de Latinoamérica en el tercer milenio”. In Cuadernos Latinoamericanos, 89. Nueva Época. Ano XV. Vol. 5. Setembro-Outubro de 2001. p. 14.
[9] Pbs.org. “O Tratado de Guadalupe Hidalgo”. “http://www.pbs.org/kpbs/theborder/images/1848treaty.gifEm 1848, no fim da guerra entre os dois países, estes assinaram o Tratado de Guadalupe Hidalgo, que determinava que México cederia quase metade do seu território, incluindo a Califórnia, o Arizona, o Novo México, o Texas e parte do Colorado, Nevada e Utah. Como compensação, os EUA pagariam 15 milhões de dólares por danos ao território mexicano durante a guerra. / “Entre os aspectos notáveis do tratado, encontram-se os seguintes: estabeleceu o Rio Grande como linha divisória entre o Texas e o México; estipulou a protecção dos direitos civis e de propriedade dos mexicanos que permanecessem no novo território dos EUA. Além disso, os EUA aceitaram patrulhar o seu lado da fronteira e os dos países aceitaram dirimir futuras disputas sob mediação obrigatória. No entanto, quando o Senado dos EUA ratificaram o tratado, eliminaram o Artigo 10, que garantia a protecção das concessões de terras dadas aos mexicanos pelos governos de Espanha e México. Também diminuiu o Artigo 9, que garantia os direitos de cidadania dos mesmos. / http://www.pbs.org/kpbs/theborder/images/1848treaty–the-mexican-copy.jpgIsto, por sua vez, provocou uma atmosfera anti-mexicana que deu lugar à violação dos direitos civis dos mexicanos. No Texas, restringiram-lhes o voto; no Novo México, foram vítimas de violência e na Califórnia, as autoridades aprovaram leis contra eles, algumas das quais ficaram conhecidas por Greaser Laws, ou Leis contra los Grasosos (grasoso sendo um termo depreciativo). / “Durante o período do tratado, cerca de 80 000 mexicanos viviam no terreno cedido pelo México, população que compreendia 4% da população mexicana. Poucos deles decidiram conservar a sua cidadania mexicana. A maioria dos 80 000 mexicanos continuou a viver ali, então já o Sudoeste dos EUA, com a crença de que os seus direitos civis de terratenentes seriam protegidos. Esse não seria o caso. Em finais do Séc. XIX, a maioria deles perderam a suas terras através do despojo ou da fraude./ “Durante o Movimento Chicano dos anos 60, o líder dos direitos à terra do Novo México, Reies López Tijerina, e o seu grupo Alianza invocaram o Tratado de Guadalupe Hidalgo na sua luta por recuperar as terras retiradas aos mexicanos daquela época. Em 1972, os Brown Berets, o Gorras Café, uma organização de jovens activistas latinos, também invocaram o tratado quando se apoderaram temporariamente da Ilha Catalina. / “No que respeita à posse da terra, muitas das mencionadas concessões de terra não foram reconhecidas pelos EUA. Na Califórnia, cerca de 27% delas foram rejeitadas; no território do Novo México, 76% das mesmas também foram rejeitadas.” http://www.pbs.org/kpbs/theborder/espanol/history/timeline/6.html
[10] La guerra contra los Estados Unidos de América 1846-1848 . http://washingtonst.conevyt.org.mx/colaboracion/colabora/objetivos/libros_pdf/sso3_u11lecc5.pdf
[11] Wikipédia. “México”. http://es.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9xico
[12] La Haine. El narcotráfico sirve de excusa para militarizar el país. http://www.librepenicmoncjose.blogspot.com/2014/04/el-narcotrafico-sirve-de-excusa-para.html
[13] Los niños son las primeras víctimas de la guerra contra el narcotráfico en México. http://www.cubadebate.cu/noticias/2013/12/08/los-ninos-son-las-primeras-victimas-de-la-guerra-contra-el-narcotrafico-en-mexico/#.U1GgYfl5PDs
[14] Informador.com.mx. “Los ministros de Seguridad de EU, México y Canadá se reúnen en Canadá”. http://www.informador.com.mx/mexico/2012/366237/6/van-150-mil-muertos-por-la-guerra-contra-el-narco-en-mexico-eu.htm
[15] Radio La primerísima.com. EE.UU. debe frenar consumo de droga, dice Daniel http://www.radiolaprimerisima.com/noticias/111821/eeuu-debe-frenar-consumo-de-droga-dice-daniel
[16]. Periodismo humano. “Estamos en guerra, nos están matando y llevamos más de medio millón de víctimas”
http://periodismohumano.com/culturas/estamos-en-guerra-nos-estan-matando-y-llevamos-mas-de-medio-millon-de-victimas.html
[17] Emilio Godoy. “El intocable dinero del crimen en México” http://periodismohumano.com/sociedad/el-intocable-dinero-del-crimen-en-mexico.html
[18] Periodismohumano. “Vamos a hacer un cambio, vamos a dejar el miedo” http://periodismohumano.com/en-conflicto/%E2%80%9Cvamos-a-hacer-un-cambio-vamos-a-dejar-el-miedo.html
[19] Tolteca Cayotl. LA POBREZA EXTREMA Y LA RIQUEZA EXTREMA EN EL PAÍS. http://www.toltecayotl.org/tolteca/index.php?option=com_content&view=article&catid=25:general&id=491:la-pobreza-extrema-y-la-riqueza-extrema-en-el-pais
[20] Roberto González Amador. Periódico La Jornada. “Panorama social de América Latina y el Caribe 2013”. http://www.jornada.unam.mx/2013/12/06/economia/031n1eco
[21] Guillermo Almeyra. “Es necesario un cambio radical”. http://www.rebelion.org/noticia.php?id=183899&titular=es-necesario-un-cambio-radical-


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